Catador de Papel

Crônicas Paulistanas
Logo que acordei olhei pela janela, num olhar perdido de curiosidade desajeitada esperando o dia dizer o que vai acontecer.
Daí reparei num catador de papel. Mas eu sempre reparo neles, manejando a carroça, procurando papelão nos cantos da cidade e irritando aos apressados do trânsito congestionado, também reparo nos irritados.
Pois bem, antes do catador, tenho que dizer que o dia amanheceu escuro de calor chuvoso, “garooso” (se assim posso falar), desses dias de São Paulo. Os sinais de trânsito na sua rotina abrindo e fechando em seu próprio tempo e os motoboys, igualmente, sem parar em sua próprio tempo e em sua própria lei.
E ali, estava ele: atravessando o sinal, sem se preocupar com nada disso, nem com o fluxo de veículos, nem com a chuva, nem talvez com sua vida, ele estava atrapalhando o trânsito (diferente do que canta o Chico), ia andando, devagar e sem sapatos. Ajeitando o peso, abaixando e subindo a alavanca da carroça e dando dois passos de cada vez, e logo tudo de novo: se ajeitava, subia, baixava caminhava e assim ele se foi até eu o perder de vista. Como uma canoa de pesca entrando em tempestade alto mar.
Dei um gole na minha água e engoli seco tentando entender: ele faz tudo isso e sem sapatos? Mas como? Será a sua necessidade mais que básica de sobrevivência em catar os papéis alheios antes de calçar-se pro mundo?
Assim fiquei olhando pela janela, com resto de água no meu copo e a bofetada descalça me dando bom dia.

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