A Menina no Kimono Branco

Girl in a white Kimono 1894
George Hendrik Breitner – Rijksmuseum.

Essa menina possui algo de vazio ou alheio.

Algo entre não quero escutar e deixem-me em paz. Como se um sentimento adolescente tomasse conta da cena e ela estivesse saindo de uma discussão longa, pior que um sermão de domingo da igreja. Provavelmente a briga era com a mãe, que a dizia: “Você tem que provar essa roupa e se arrumar para sairmos, hoje você vai conhecer o seu futuro noivo” e ela, apesar de obedecer, se sente insatisfeita e para de escutar tudo o que veio depois de ‘futuro noivo’ e se joga no futón coberto com almofadas de sedas Valencianas e algodão egípcios da entrada da sala dos anfitriões. Ela tampa-se as orelhas para não ouvir mais a sua mãe, a música da festa, ou as besteiras das outras meninas – em uma atitude nada madura…(às vezes tenho vontade de fazer isso, mas os pensamentos não calam).

Evidentemente, este é um Kimono Japones que tem história e procedência. Ele  é de seda chinesa desenhado a mão pelas viúvas dos antigos Samurais, com detalhes vivos da primavera: pássaros e árvores que simbolizam a fartura e o recomeço. Ele foi comprado numa das ilhas Tokara do Japão por um velho negociante rico das Companhia das Indias Ocidentais; e ele escolheu essa peça de presente para sua futura noiva, na esperança do bom agouro de receber um sim; além de imaginar que ela ficaria estonteante dentro dele (o que realmente ficou).

Sem embargo, o noivo mal sabia que ela seria eternizada por uma terceira pessoa, um garoto que alimentava uma paixão platônica por ela, o filho do Miniaturista de sua irmã, com quem ela brincava na beira de um canal nas poucas manhãs de sol de Amsterdam.  E justamente ele , o filho do miniaturista – o garoto que reparava em tudo e falava tão pouco – estava passando quando ela se deixou cair no futón. Flagrado pela paixão da espontaneidade do gesto, ele ficou atrás de um biombo que decorava a entrada, só observando o que ela faria em seguida.  A menina tampouco se deu conta de que ele estava ali, fazendo rabiscos mentais, desenhando-a como um espião, ávido por absorver todos os detalhes de tamanha beleza. Poucos instantes mais tarde, durante o jantar, sua paixão seria arrebatada pelo anúncio da boda.

Sem se importar com o enlace, ele correu pra casa e fez uma dedicatória de amor com poucas palavras e da maneira como sabia: uma pintura de óleo em tela.

Eu sei que nem a metade do que está escrito aqui é verdade, mas foi o que a Menina sussurrou pra minha imaginação, e pra mim, isso já é o bastante.

E pra você, ela diz alguma coisa?